João Nogueira Dias – Crónica sobre o circo e as autár(ti)cas

É quase isso: as autárquicas chegaram à cidade

Se dizes “autárticas” em vez de “autárquicas”, este texto não é para ti. Entra na máquina do tempo e avança para 2027. Esperamos lá por ti, na era em que todos os cidadãos dirão “autárticas”, depois de uma revolução perpetrada por uns gajos.

(Não posso revelar a identidade deles, senão, a revolução não terá lugar.)

A palavra “autárquicas” é, para alguns, tão difícil de dizer como “Maksim Alyaksandravich Bardachow”. Este nome existe e é de um jogador da selecção da Bielorrússia de futebol. Não sei por quê, mas se viesse jogar para Portugal, ainda não tinha posto os pezinhos no aeroporto e já teria nome: “Bardajolas”.

As autárquicas estão à porta. Não vale a pena esconderes-te: elas aparecem, de quatro em quatro anos, e soltam monstros que te vão perseguir. Parece uma lenda foleira da Transilvânia. Sem o Conde Drácula. Mas com vampiros.

Reza a lenda que os monstros se fazem anunciar com cartazes muito, mas muito, misteriosos. Como os daqueles circos manhosos que, quando chegam à cidade, te provocam pesadelos. Daqueles que têm gajos que parecem estar prontos a pegar na faca e a fazer estragos.

Tipo isto.

Mas não são só coisas más. Na altura das autárquicas, há brindes em todo o lado. Tantos como naquelas festas temáticas, em determinadas discotecas. Mas com uma ligeira diferença: a ressaca das autárquicas dura quatro anos.

Na campanha para estas eleições, famílias inteiras percorrem as ruas. São todos candidatos: o pai, a mãe, o tio, a prima, a prima gira, a prima quase tão gira, a vizinha do 5.º esquerdo e a do 10.º direito. Só não é a do 15.º esquerdo porque o prédio só tem dez andares. Fica tudo em família, como no filme “O Padrinho”. Com uma diferença: a banda sonora do filme é muito boa.

Há muito amadorismo: os cartazes são maus, as músicas são irritantes, os “slogans” são, por vezes, infelizes. Não se via tanto amadorismo desde que o Governo instituiu os “briefings” diários.

No meio disto tudo, há algo ilógico e injusto: tornou-se comum chamar “dinossauros” aos autarcas com muito tempo de mandato. A extinção dos dinossauros é atribuída à queda de um meteorito. Alguém acredita que os presidentes de câmara experientes se deixariam extinguir por acção de uma pedrinha?

Arranjariam logo uma forma de embargar o movimento do astro, mandariam a lei da gravidade para o Tribunal Constitucional e, caso tudo isto falhasse, telefonariam a um empreiteiro amigo, para que este lhes emprestasse umas bombas, com as quais explodiriam o meteorito.

Em último caso, teriam um “bunker” com oito quartos e uma piscina. Vista para o mar, não, mas uma das paredes estaria pintada de forma a criar esse efeito. Tudo se arranja com um telefonema. Como n'”O Padrinho”.

Via P3

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